9.2.11

Mercearia Encarnação = 1891 / 2011 - 120 anos depois

A Mercearia Encarnação é das firmas mais antigas da Figueira da Foz, se não mesmo a mais antiga.
Fundada em 1891, os seus fundadores e seguidores puseram-lhe a designação de ‘mercearia’, neste tempo querendo significar uma certa diferença com a venda de mercearias finas, distinguindo-a, assim, de outras lojas de venda ao público.
Entre 1920 e 1930, o ‘pequenote’ Manuel Gaspar do Sacramento(*) entra como marçano. Com ‘faro’ para o negócio, foi adquirindo quotas na sociedade, comprada aos fundadores e donos do prédio.
Na década de 40 iniciam-se os anos de ouro da "Casa Encarnação - Mercearias Finas". Foi por esta altura que, no verão, a Figueira no seu auge recorria aos préstimos da mercearia, de tal modo que nos meses de Julho e Agosto alugavam uma "charrette" para ir buscar à estação de combóios os banhistas que chegavam à cidade para passar as quinzenas de férias e lhes ofereciam os préstimos da mercearia.
Também por esta altura tinham um expositor com a imagem de uma vaca, onde se servia leite do dia às pessoas.
A afamada tasquinha pegada à mercearia (virada para a rua Maestro David de Sousa) era muito conhecida e concorrida sobretudo pelos espanhóis que tinham ali o seu local de poiso depois da praia. Era carinhosamente conhecida e tratada como “A Tasca do "Dom Manolito", e era um sucesso. A loja nesta altura teria 6/7 empregados, todos trajados a rigor com gravata e ‘blazer’. Tinham um carrinho (tipo reboque) para levar as compras a casa das pessoas e uma bicicleta importada da Inglaterra com um cesto na frente que levava 12 garrafões de água.
Nos anos 50 entra como marçano Eduardo Caldeira, na altura em que Manuel Gaspar fica definitivamente como único dono. Eduardo Caldeira, que ao inicio trabalha apenas nos meses de Verão, tempos depois fica a tempo inteiro. Mais tarde inicia o mesmo ciclo do sr. Manuel e começa a comprar quotas. A tasca passa a secção de vinhos e alarga o seu leque de fieis clientes para os ingleses e franceses. Estes, não como os espanhóis - clientes entre as idas à praia - mas depois do jantar. Por esta altura o Dom Manolito tinha um furgão com 6 lugares e levava os estrangeiros a passear à Serra da Boa Viagem e às outras belezas naturais que a Figueira oferecia, e oferece, a quem nos visitava.
Com a construção da Celbi os Suecos recorriam à mercearia porque era a única que tinha produtos importados (a que estavam habituados), nomeadamente os produtos Ramazzoti.
Os anos 70 continuaram a ser importantes em termos de afirmação, mas começa-se a notar a sazonalidade. O Bairro Novo deixa-se ultrapassar por outros sítios de mais passagem de pessoas. Saliento o facto de a Rua Maestro David Sousa (antiga Rua dos Banhos), ter dois sentidos de trânsito, estacionamento do lado direito, bombas de gasolina e, no verão, algumas mesas junto à secção de vinhos, no passeio!
A taberna/secção de vinhos encerrou nos anos 80. A mercearia aumentou, mas perdeu a tradição. E conheceu as dificuldades decorrentes do começo da abertura dos supermercados.
Com os ajustamentos necessários continua no activo. Poderá não ser “A” mercearia, é agora e só “mais uma”, mas continua a ostentar o nome tradicional de há 120 anos: Mercearia Encarnação.
(*) Manuel Gaspar Sacramento faleceu em 1995. Pela divulgação, prestígio e elevação que sempre fez da ‘sua’ Figueira como a Rainha das Praias de Portugal, bem que merecia um reconhecimento, singelo que fosse, por parte de quem de direito.
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